Capítulo Um: Breaking Matters
Sing a song for the broken and the damned
Como era de se esperar, aqui estava ela novamente. Simplesmente calma, esperando por sua vez de ser atendida. Emilia atualmente estava dividindo seu tempo entre uma psiquiatra e um psicólogo. A causa de suas frustações e transtornos ainda não eram claras para ela, mas, mesmo assim, podia desabafar quando quisesse. O que não era tão fácil, vendo que Emilia era fechada até mesmo para si.
Sua psiquiatra, a Dra. Hanstremberg, recomendou-lhe um par de remédios em sua primeira visita. Como em uma rotina mais que exagerada, Emilia não lhe fez perguntas, somente os botou para dentro, aceitando-os pelo o que quer que fossem. Era uma boa mulher, a doutora. Nunca fez a garota se sentir mais desconfortável do que de costume. Ela admirava seu consultório, também. Quadros de pequenos animais e natureza em sua mais viva forma decoravam as paredes, assim como algumas plantas. Os sofás, todos de tons claros, eram baratos, mas davam-lhe a sensação de estar em casa. Seu plano de saúde pagava por essas consultas.
Ao contrário da Dra. Hanstremberg, porém, seu psicólogo era bem diferente. Jeffrey Burnham tinha um consultório na Fifth Avenue, acima do tão respeitado consultório Clark & Paltrow. Sua mobília, para economizar palavras era, em si, cara; dos mais altos padrões que um consultório poderia pedir. Empregado por Gregori's Medic há três anos e cinco meses, acomodou-se numa sala à esquerda, enorme, paredes fracamentes pintadas de amarelo e branco com pinturas caras de natureza morta em todas as paredes. Os móveis, com um estilo e ar de mobilia vitoriana, encantavam a todos aqueles velhos o suficientes para entenderem o que se passava diante de seus olhos. Jeffrey era um psicólogo e um apreciador de coisas que o dinheiro podia lhe comprar.
A sala de espera, onde Emilia e sua mãe agora se encontravam, era mil vezes maior que seu pequeno apartamento na South Street. Com uma mesa de recepção hexagonal, as recepcionistas não paravam um segundo sequer de fazer seu tão renomado trabalho. Os telefones tocavam a mil. Eis que, com um olhar desprevenido, Emilia é chamada, a próxima numa linha em sucessão ao desespero de seus contos imagináveis de depressão.
— Olá, Emília — ele disse com seu ar falsamente interessado novamente. Toda semana, Emilia o escrutinou, ele o usava com ela.
— Olá — ela esperava, realmente esperava, que sua voz desta vez não desse nenhuma indicação de fraqueza. O que era difícil, já que estava resfriada.
Desde o último mês, ele havia sugerido que a garota tivesse sessões de terapia com ele. Ela concordou, mas achava as mesmas difíceis já que, bem, tinha que realmente revelar como se sentia para um completo estranho. E Jeffrey Burnham era realmente estranho. Sua barba por fazer e cabelos despenteados ajudavam a dar uma melhorada em sua aparência, agora que estava alcançando os quarenta e três anos. Emilia se perguntava o porquê de Burnham ter sempre a barba por fazer nos dias em que ela vinha aqui. Faria isso de propósito ou apenas se esquecia de barbear-se?
— Emilia? — Ele a chamou, parecendo tirá-la de algum tipo de transe.
— Sim?
— Você está bem? Parece que não ouviu nada do que acabei de lhe dizer. — Enquanto um sorriso aparecia nos lábios de Burnham, ela percebeu que, enquanto pensava na higiene pessoal do mesmo, ele estivera falando com ela, e acabara deixando-o ali, a falar com as fadas.
— Não. Não, claro que sim. Estou bem. Ouvi tudo. — Ela lhe assegurou, mesmo não tendo ouvido uma palavra sequer do que ele falara.
— Oh, então pode começar — a assegurou. Como o silêncio se seguiu, ele teve de continuar. — A consulta, Emilia. Você deve falar. — Isso pareceu tirá-la de outro transe, pois a mesma começou a se agitar, boca mexendo-se sem nenhuma palavra a seguir.
— E-eu... eu entendo q-que o divórcio de meus pais é uma coisa deles e isso não tem nada a ver comigo. Não há nada que eu possa fazer quanto a isso- só- só não existe mais amor ali. Quando não existe mais amor, duas pessoas não devem mais ficarem juntas, não é isso e- eles devem se separar- quero dizer... não seria bom viver em uma casa onde ambos não se amam...— ela parou, seu fôlego acabando ali mesmo.
— É sobre isso mesmo que você quer falar? — Ele cruzou suas mãos.
— É... não é?
— Eu não sei... É? — Emilia odiava isso. Suas perguntas redirecionadas a ela mesma.
— Droga eu- me desculpe. — Burnham suspirou.
— Isso não foi o que lhe trouxe aqui hoje, foi Emilia? O que lhe trouxe aqui todos esses meses? — Ele a encarou, um sorriso sábio em seus lábios.
— Não. — Ela confessou. — Foram minhas tentativas fracassadas de acabar com a vida de Emilia.
— E por que você quer acabar com a vida de Emilia?
— Por que Emilia não merece viver, você não entende?! — Lágrimas começavam a cair de seus olhos vazios, antes cheios de vida. — Você é só mais um, o que saberia. É só mais um no joguinho deles...
— Quem... — antes de terminar de falar, porém, o relógio badalou seus trinta minutos, e Emilia estava fora da jogada. — Escute, Emilia, semana que vem continuaremos esta mesma conversa, está bem? Não se esqueça disso. — Ela aquiesce. — Aqui, querida, um lenço para você. Vá.
Ela se retira, pequena e destruída, operação "Descontruindo Emilia" agora completa. Ele já havia forçado-a a confessar coisas piores, ela se lembrou. A confessar sua própria culpa. Afinal, a culpa era sua, nunca dos outros. Suas próprias conseqüências. Olhou para todos os lados, não encontrando sua mãe. Deve estar no banheiro, pensou. Sentou-se no seu lugar de sempre, esperando cabisbaixa pelo retorno da mesma.
Era sempre uma luta diária para tomar os remédios. Uma luta que somente sua família podia lutar contra ela. Emilia não queria, mas era forçada. Quem sabe do que poderia fazer sem eles novamente. Não. Ela sabia exatamente do que era capaz.
— Olá — veio uma calma e gentil voz. — Vi você saindo agora pouco da sala do sr. Burnham. Será que poderia entregar isso para ele, por favor? Eu realmente estou com muito pressa, do contrário não estaria lhe pedindo isto. — A recepcionista disse. Ela lhe entregava uma pasta bege com alguns arquivos dentro, sabe-se lá o que havia ali. Emilia jamais poderia recusar um favor a alguém.
— Claro... — ela disse em sua pequena e fraca voz.
Emilia pegou a pasta e, ficando de pé, arrastou-se pelo enorme corredor entre obras de artes que deveriam valer mais que todos os apartamentos em que já morara juntos. Um dia, talvez, ainda viria a destruí-las. Com esse pensamento em mente, ela foi em frente, mãos levemente trêmulas graças aos efeitos colaterais dos remédios, pasta em baixo do braço, mãos à frente do corpo em direção à maçaneta. E, com precaução, pois sabia que interromperia a sessão de alguém, ela levemente bateu na porta. Uma. Duas. Três vezes. Ninguém atendeu. Ninguém a mandou entrar. Quando estava quase a desistir, Emilia reuniu toda a sua coragem pela recepcionista e, abrindo a porta, olhou pela fresta com todo o cuidado. Mas, o que é visto, não pode ser esquecido. Atrás da mesa de mogno de Jeffrey Burnham, estava ele e uma garota loira, dezessete anos assim como Emilia, em um entrelaçamento desfavorável à visão da pobre garota depressiva. O entrelaço, os sons e a visão era algo que não aguentaria.
Foi nesse dia que Emilia Fahrenheit foi a loucura.
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