Capítulo Dois: Breaking Issues
In darkness dwells - a heart.
Com a convicção que devia sair dali, Emilia tremia. Tremia somente por ver a cena em sua frente. Algo, como uma grande fileira de pequenos dominós, havia começado a cair em seu interior. Algo estava se destruindo. Virou-se então em direção à saída, seus pés pequenos e sorrateiros fazendo o mínimo de barulho possível. Mas eis que algo começa a crescer, grande e lentamente, dentro de seus pulmões. Alguns segundos depois, ela o botou para fora. Com o barulho de um único espirro, Emilia denunciou sua chegada.
— O que foi isso? — Ela pode ouvir uma voz feminina perguntar de dentro da sala.
— Eu... — antes que qualquer outra palavra fosse proferida, ela correu. Correu pela sua salvação, por corredores que nem sabia existir, passando por várias portas de emergência.
Emilia correu para a luz.
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Pernas. Braços. Ela podia ver tudo. Como pesadelos decorrentes em um estado de sono em que não podia dormir, se desesperava. Andava lentamente pelo sol, em uma caminhada rotineira de sua escola até em casa, enquanto podia imaginar, até mesmo ouvir a voz de Jeffrey Burnham sussurrar em seu ouvido. Podia ouvir os gemidos. A risada feminina da garota com quem ele estava. E isso lhe bastava. Pois Emilia Fahrenheit era, em uma perda de palavras, incomum.
Foi assim que, com este pensamento em mente, ela foi decidida para casa, um plano formado em sua cabeça.
Adentrou seu apartamento, branco com uma porta vermelha, o sonho de qualquer criança com um giz de cera em mãos. Foi à sala, pegou alguma coisa e se dirigiu ao banheiro, onde trancou a porta e, sem ao menos tirar suas roupas, entrou na banheira. Ligando a torneira para um banho quente, abriu-a no máximo e esperou que enchesse. Cinco minutos depois e Emilia estava enrolando a manga de sua blusa esquerda. Com uma mão ágil e a vontade de dois soldados covardes, ela pegou a agulha de tricô de sua mãe e, com força suficiente para matar um peixe, começou a cravar em seu próprio braço as letras D-E-S-G-O-S-T-O. Ao acabar, ela somente relaxou, cabeça apoiada, um leve zunido em seu ouvido. Ela poderia jurar, no entanto, que aquela era a 9ª Sinfonia de Beethoven sendo tocada exclusivamente para ela. Foi aí que tudo se tornou um mar de escuridão.
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Ela acordou em 25 de outubro de 2010 sentindo-se cansada. Cansada e aliviada. Aliviada por ver que estava em um hospital, por terem achado-a e por ela não ter morrido. No entanto, o sentimento de fracasso era enorme. Abrindo seus olhos mais um pouco, vagarosamente, viu onde realmente estava.
St. Peter's Royal Hospital. Ou como eles o chamavam - o hospital para ricos e famosos. Sua mãe devia estar realmente desesperada para trazê-la aqui. Emilia abriu sua boca, um enorme bocejo escapando. Acabara de acordar, não poderia estar com sono... ah, os remédios. Os remédios faziam todo o trabalho.
Esforçando-se para sentar, Emilia sentiu a dor - afiada e trapaceira vindo de seu antebraço esquerdo. As gazes e faixas estavam levemente sujas de sangue velho de, talvez, ontem a noite. Não sabia por quanto tempo havia dormido. Nem queria saber.
Sucedendo em sentar-se, ela olhou para o lado. Ninguém estava ali. Eis que deixaram-na sozinha no quarto, para então pensar e armar consigo mesma o que estava por vir. Mas nada estava por vir. Somente ela e seus momentos de paz e torpor.
E então a porta abre, um corpo másculo e jovem que ninguém acreditaria estar entrando na meia-idade entrando, e Emilia vira seu rosto para ver quem é. Ela se desespera.
— Ah, estou feliz que esteja acordada. — Ele diz em sua voz suave e reconfortante. Falso. — Como está se sentindo? Espero que bem. Veja, Emilia, achei que depois de todas as nossas sessões, você estava melhorando. Agora, diga-me, algo deve ter acontecido para você ter regredido tão rapidamente em um período tão curto de tempo. Quinze minutos, Emilia! — Seu rosto, realmente, demonstrava desapontamento pelo tremendo trabalho que dizia ter feito.
Mas ela não poderia lhe revelar nada. Era uma péssima mentirosa e sabia que, se quisesse, ele tiraria a verdade dela num piscar de olhos. Seu rosto ruborizou só em lembrar das imagens.
— E-eu...